O problema não é a falta de números. É saber quais deles realmente importam.
- Delma Silva
- há 1 dia
- 2 min de leitura
Vivemos cercados por dados.
Contratos, extratos, planilhas, demonstrações contábeis, indicadores, séries históricas, laudos, memórias de cálculo, projeções e relatórios.
Informação não falta.
O desafio começa quando precisamos decidir o que, de fato, merece atenção.
Porque quantidade de dados não significa clareza.
E um número, por mais preciso que pareça, não se transforma automaticamente em evidência.

Dado não é evidência
Uma taxa de 3% ao mês, isoladamente, diz pouco.
Para compreendê-la, é preciso saber:
qual é a modalidade da operação?
qual é o período analisado?
qual é o prazo?
há garantias?
qual referência está sendo utilizada?
as taxas comparadas são equivalentes?
Sem contexto, o número existe.
Mas ainda não explica o problema.
Esse raciocínio vale para praticamente toda análise econômico-financeira.
Precisão não significa relevância
Uma planilha pode conter milhares de linhas.
Pode estar tecnicamente bem construída.
Pode fechar até o último centavo.
E, ainda assim, não responder à pergunta central.
Esse talvez seja um dos riscos mais silenciosos em trabalhos técnicos: confundir volume de informação com profundidade de análise.
O objetivo não deveria ser apresentar tudo o que foi encontrado.
Deveria ser identificar o que efetivamente interfere na conclusão.
Indicadores isolados também podem enganar
Uma empresa pode apresentar lucro e enfrentar falta de caixa.
Pode crescer em faturamento e perder margem.
Pode possuir patrimônio relevante e ainda enfrentar dificuldade de liquidez.
Uma dívida pode parecer elevada pelo valor nominal e, ao mesmo tempo, apresentar um fluxo de pagamento administrável.
Ou pode parecer suportável quando observada apenas pelo saldo, mas concentrar vencimentos incompatíveis com a geração de caixa.
Em valuation, uma empresa pode crescer e ainda assim destruir valor.
Em contratos, uma taxa pode estar acima da média e exigir uma análise muito mais ampla antes de qualquer conclusão.
Em perícia, uma diferença pode existir matematicamente e não possuir relevância para o ponto controvertido.
É por isso que a análise não pode parar no indicador.
Ela precisa compreender o que aquele indicador representa.
Analisar também é selecionar
Talvez essa seja uma das funções mais importantes do economista.
Diante de dezenas de documentos e centenas de informações, identificar quais variáveis realmente explicam o problema.
Separar:
dado de evidência;
correlação de causalidade;
efeito de causa;
valor contábil de valor econômico;
resultado aparente de impacto efetivo.
Nem toda informação merece o mesmo peso.
E nem todo número precisa aparecer na conclusão.
Uma boa análise não é aquela que apresenta mais dados.
É aquela que consegue demonstrar, com método, quais dados realmente sustentam a decisão.
O papel da análise econômico-financeira
Quando atuamos em assistência técnica, perícia, avaliação de empresas, contratos ou estudos econômicos, o objetivo não deveria ser simplesmente produzir números.
O trabalho começa antes.
Na definição da pergunta.
Na seleção das fontes.
Na escolha das premissas.
Na validação dos critérios.
Na compreensão das limitações.
E, principalmente, na capacidade de explicar por que determinado dado importa mais do que outro.
Porque mais informação não significa necessariamente mais conhecimento.
E mais números não significam necessariamente uma análise melhor.
Autoridade técnica não está em apresentar a maior quantidade de dados.
Está em saber quais deles conseguem sustentar uma conclusão.
E, algumas vezes, saber também quais deles devem ser deixados de fora.
Na sua rotina profissional, qual indicador costuma receber mais atenção do que realmente merece?


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